"Tudo vale a pena se a alma não é pequena" (Fernando Pessoa)

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

CRISTINA BRANCO

O fado no sentido

Na arte e vida de Cristina Branco (Almeirim, 1972) pode dizer-se, como diz a letra de Amália, que traz o fado nos sentidos. O fado atravessou a vida de Cristina por um acaso feliz. De certa maneira, terá sido ela, pela sua ousadia estética e cunho interpretativo muito particular, a atravessar o Fado enquanto fenômeno musical de profundas raízes tradicionais. “Começou por uma brincadeira, um serão de cantigas entre amigos”, segundo gosta de recordar. Nada até aqui, adolescente, a diria fadista. Antes de entoar menores, mourarias ou maiores, e logo como gente grande, Cristina não frequentara casas de fado ou escutara o vinil das vozes da tradição. Conhecia alguns fados de ouvido, trauteados pelo avô materno, letras e acordes que repetia de improviso sem ter consciência de como estes se entranhavam, como lhe decidiam o destino. Estava por essa altura mais próxima de Billy Holliday e Ella Fitzgerald, de Janis Joplin e Joni Mitchell do que Amália Rodrigues. Quando o mesmo avô lhe ofereceu pelos seus 18 anos o disco Rara e Inédita, obra maior e menos conhecida da grande diva do Fado, não sabia ainda como acabara de lhe mudar a vida para sempre.

Na verdade, escassos meses antes de pisar um palco a primeira vez, em Amesterdão (1996, Zaal100), Cristina nunca se imaginara sequer uma intérprete amadora ou cantadeira de horas vagas como é próprio de muitos fadistas que encontram no fado um pretexto de ócio ou expiação. Se havia fado na sua vida de adolescente, era apenas no mais profundo sentido etimológico da palavra (o fatum, o destino) que a dizia já “fadada” para a palavra. Até 1996, aos 24 anos, duas ou três experiências de canto fortuitas, e arrancadas a custo da sua timidez histórica, eram tudo o que havia feito publicamente enquanto “cantora”.

O Jornalismo era “a arte” que procurava. Talvez por isso, hoje e sempre, as palavras (os redondos vocábulos, como lhes chama) rejam todos os seus discos, todas as suas intervenções, todos os seus projetos em curso. Cantora de poetas, os maiores de Portugal (Camões, Pessoa, David Mourão Ferreira, José Afonso…), e alguns do mundo (como Paul Éluard, Leo Fèrre, Alfonsina Storni ou Slauherhoff), Cristina Branco fez do seu modo de entender o fado uma espécie de porta-voz da Poesia e da Literatura do cancioneiro nacional. Passada uma década desde a sua estreia no Círculo de Cultura Portuguesa de Amesterdão (onde antes passaram Zeca Afonso, Carlos Paredes, Sérgio Godinho…) reconhecem-lhe hoje os seus pares, como marca de personalidade humana e artística, um fortíssimo e muito sincero pendor poético. Traço maior aliado a uma exigência ainda maior com os rigores da dicção e a clareza da palavra que na hora de ser voz (de uma límpida volúpia) é como se desse corpo à alma contida no poema.

Depois, do Fado espera-se em demasia que este traduza o sentimento trágico da vida: o sofrimento, a saudade e a impotência perante o destino. A tradição já longa do Fado depositou algumas “fórmulas” para dar voz a esses sentimentos, cuja invariável repetição tem conduzido à delapidação desse tesouro expressivo, ao seu inevitável esvaziamento emocional, ao sobrevoar das palavras pelos cantores. Porém, e ao arrepio dos cânones mais ensimesmados do Fado dito tradicional, o caminho de Cristina Branco tem sido outro: autônomo, singular e muitas vezes ébrio de alegria (como no tema iconográfico da sua carreira “Sete Pedaços de Vento”, in Ulisses). No mínimo, o caminho do Fado de Cristina reveste-se da volúpia do aborrecimento.

Sem procurar uma ruptura ingênua com a tradição, antes procurando o que nela há de melhor (ouçam-se alguns dos “clássicos” por ela cantados), Cristina Branco reanima a tradição com a sua originalidade. Em todos os seus discos tem procurado o exigente convívio dos textos com a musicalidade inata do fado.

Cristina Branco reúne toda a emoção que o gênero podia conter na sua íntima ligação entre voz, poesia e música. Tal como outros jovens músicos que, desde meados dos anos 90, encontraram no Fado a sua forma de expressão, contribuindo para uma surpreendente renovação da Canção de Lisboa, Cristina Branco começou a definir o seu percurso, onde o respeito pela tradição caminha lado a lado com o desejo de inovar. Se nada na vida de Cristina indicava que o seu destino seria o fado, temos hoje de admitir que Cristina Branco está a criar um estilo senão “raro”, certamente “inédito”.

Pontos Altos

A cantora grava “Cristina Branco Live in Holland”, em edição de autor, registado ao vivo em dois concertos realizados no dia 25 de abril de 1996. Foram feitos mil exemplares “que se venderam imediatamente”, logo seguidos por novas edições sucessivas, até se chegar aos 5000 discos vendidos.

Edita o disco “Murmúrios” pela editora holandesa Music & Words. O disco reúne 14 temas, desde fados tradicionais como “Abandono” (imortalizado por Amália, com texto de David Mourão-Ferreira) a versões de Sérgio Godinho (“As certezas do meu mais brilhante amor”) ou de Luís Vaz de Camões, com música de José Afonso (“Pombas brancas”). A maioria dos temas tem assinatura de Maria Duarte, autora dos textos, e músicas de Custódio Castelo.

Recebe, em França, em 1999, o Prix Choc da revista “Le Monde de la Musique” pelo melhor disco de “Música do Mundo”.

Em fevereiro de 2000 sai o álbum “Post-Scriptum” (título de um poema de Maria Teresa Horta). Conquistou o Prix Choc, desta vez para o melhor álbum do mês de março, em França.

Na Holanda edita o disco “Cristina Branco Canta Slauerhoff”, o segundo desse ano, com textos do poeta holandês J. J. Slauerhoff (1925-1976) Jan S. (1898-1936), com tradução de Mila Vidal Paletti e música de Custódio Castelo. O disco constitui como que uma prova de agradecimento de Cristina Branco ao país que lhe abriu as portas do sucesso embora nunca tenha vivido na Holanda.

Durante o ano de 2000, a cantora realizou cerca de 130 espetáculos por todo o mundo. O disco “Corpo Iluminado”, o primeiro com edição da Universal Music Classics França, foi editado em 2001.

Em 2002 é reeditado “O Descobridor”, novo título para o disco onde canta Slauerhoff, com três novos temas.

O sexto álbum de Cristina Branco, de título “Sensus” foi editado pela Universal, no dia 24 de março de 2003. A música é assinada por Custódio Castelo. O álbum conta com letras de David Mourão-Ferreira, Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Eugênio de Andrade, Camões e Shakespeare, entre outros.

“Ulisses” é o nome do disco seguinte, editado em 2005.

Em 2006 é editado “Live”, um registo ao vivo, tributo a Amália Rodrigues.

Em 2007 demarca-se do fado e revisita a obra do cantautor Zeca Afonso.

Em Março de 2009, Cristina Branco deu a conhecer o seu novo disco, “Kronos”, que tem por tema unificador o Tempo e é constituído por canções inéditas compostas por uma dezena de criadores muito diferentes: José Mário Branco, Sérgio Godinho, Amélia Muge, Rui Veloso, Vitorino, Janita Salomé, Maestro Victorino d'Almeida, Mário Laginha, Carlos Bica, João Paulo Esteves da Silva e Ricardo Dias.

Em 2010, Cristina Branco é o rosto português escolhido pelo pintor Júlio Pomar como inspiração para a criação de um selo e serigrafia comemorativos do centenário da República Portuguesa.

Em junho deste mesmo ano, Cristina Branco, juntamente com Carlos Bica e João Paulo Esteves da Silva, enfrenta um desafio invulgar, ao participar no festival de homenagem a Robert Schumann, em Dusseldorf, projeto posteriormente apresentado no CCB e no Goethe Institut do Porto.

Cristina Branco começa o ano de 2011 com uma participação na tournée anual de Ano Novo da Sinfonietta de Amsterdam. Depois de músicos como Bobby McFerrin, Chick Corea e Roby Lakatos, e depois de ter participado já nesta tour em 2006, Cristina Branco volta a acompanhar a orquestra, numa série de seis concertos.

Também em 2011, Cristina Branco apresenta o seu novo trabalho “Não há só Tangos em Paris”, de onde sairão palavras de Manuela de Freitas, Antônio Lobo Antunes, Vasco Graça Moura, Carlos Tê, ou Miguel Farias, vestidas por sons saídos da inventiva de Mário Laginha, João Paulo Esteves da Silva, Pedro Moreira e também a música de Jacques Brel, Carlos Gardel e Isolina Carrillo, - unificadas pela voz simultaneamente suave e profunda da cantora… Novas sonoridades, mas com o Fado sempre presente.


Discografia

1- Cristina Branco in Holland (CD, Ed. Autor, 1997)
2 - Murmúrios (CD, Music & Words, 1998)
3 – Post-Scriptum (CD, L'Empreintdigitale/Harmonia Mundi, 1999) - reeditado em 2000 com um novo tema
4 - Cristina Branco canta Slauerhoff (CD, 2000)
5 - Corpo Iluminado (CD, Universal, 2001)
O Descobridor (CD, Universal, 2002) - reedição de Slauerhoff
6 - Sensus (CD, Universal, 2003)
7 - Ulisses (CD, Universal, 2005)
8 - Live (CD, Universal, 2006)
9 - Abril (CD, Universal, 2007)
10 - Kronos (CD, Universal, 2009)
11 – Não há só Tangos em Paris (CD, Universal, 2011) (Fado /Tango na edição internacional)


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